Amazônia cobiçada

Terra brasilis

Carlos Olavo Pacheco de Medeiros

Magistrado

As preocupações ininterruptas de um juiz, que o fazem prisioneiro do estudo das leis e dos processos, não o eximem como cidadão de outras tão importantes quanto as do seu ofício, porque atinentes a interesses vitais dos brasileiros. Reportagem do Jornal do Brasil (28/1/2007) mostra a calva de um dos nossos mais sérios e intrigantes problemas, para os quais ainda não nos despertamos com a atenção devida: a ocupação silenciosa da Amazônia, região brasileira denominada de Hiléia, por Humboldt, tal o potencial de riquezas que ali se encerra, verdadeiro paraíso de águas, plantas, animais, jazidas e outros bens naturais de dimensões incomensuráveis.

Desdobrando-se no eixo do Rio Amazonas, a floresta à direita e à esquerda de suas margens compõe quase a metade do território brasileiro. Parte dela, à direita do grande canal, vem sendo devassada nas suas franjas há alguns séculos, a partir do ímpeto indomável das bandeiras. Mas o seu cerne, o núcleo principal de dimensões incomuns até há pouco intocado, senão ligeiramente arranhado pelos nossos bravos caboclos nordestinos em busca da hevea brasiliensis, está agora exposto à fome das motosserras e de invasores que agem sob o manto de organizações não-governamentais, de entidades religiosas alienígenas e agentes outros a serviço de não se sabe quantos países estrangeiros.

A rodovia Belém-Brasília, idealizada por justo anseio desenvolvimentista, ensejou o assalto predatório fácil àquele mundo verde, sem que tivéssemos o cuidado de preservá-lo, policiando-o e ocupando-o convenientemente. No mundo moderno, não se concebe mais a ocupação manu militari de riquezas entregues às soberanias e defesas de povos imbeles, mas às nações economicamente poderosas não faltarão meios para o exercício de pressões de índole financeira para obterem sua sujeição. Desde épocas remotas, nações ricas têm olhares cobiçosos sobre a nossa Amazônia, não somente por sua opulência vegetal, mas principalmente pela riqueza que guarda em seu subsolo, rico em petróleo e outros minerais.

A internacionalização do grande rio queria-o o presidente Wilson, na Conferência de Paz após a Primeira Guerra Mundial, pretensão vencida pela bravura e o patriotismo do delegado brasileiro Epitácio Pessoa, segundo informa Gondim da Fonseca em O que sabe você sobre o petróleo? Alhures pretendeu-se até a quitação de nossa dívida externa com a internacionalização da Amazônia brasileira, trecho admirável do continente sul-americano, legado do gênio português, que mandou às urtigas o Tratado de Tordesilhas.

Manchetes de grandes jornais estrangeiros, em passado recente, chegaram a apontar a nossa inflação, agora contida, presa fácil para a sua entrega a países do chamado Primeiro Mundo.

Chegou-se a objetar que estamos prejudicando o equilíbrio da massa de oxigênio que o mundo respira e que procuramos exterminar os índios que lá se encontram (ainda numerosos), além de outros males. Ora, a história registra que, no hemisfério norte do Novo Mundo, os índios é que foram praticamente eliminados na avalanche da marcha para o oeste até o encontro com as praias do Pacífico; não tiveram os silvícolas para protegê-los a mão benfazeja do nosso taumaturgo Rondon, cujas lições de humanidade e amor aos nossos semelhantes ainda perduram.

O objetivo dessas manifestações, tal a de que “a Amazônia não é dos brasileiros, mas do mundo inteiro”, ou a de que “o Brasil deve aceitar a soberania relativa sobre a Amazônia” (esta atribuída a François Miterrand, 1985), seria o de criar uma atmosfera mundial contra o Brasil, principalmente a partir do momento em que o nosso país passou a despontar como novo potencial econômico, divisado pelo mundo inteiro e em busca de outros promissores mercados, inclusive o expansionista mercado chinês com o seu número bilionário de consumidores. Isso faz cócegas nas axilas das grandes potências econômicas, detentoras de grande fatia da economia mundial.

As reportagens de agora são preocupantes, ressaltando a questão indígena, a ação das organizações não-governamentais controladas por estrangeiros, a crescente influência de países vizinhos na região e a ação ignota sob o manto da imensidão amazônica, tudo isso a pôr em risco a própria segurança nacional. Temos de estar atentos para impedir as intromissões e levar a efeito na Amazônia um desenvolvimento ordenado, sem a brutalidade das agressões ao meio físico e dela fazermos uma região próspera de causar inveja ao mundo, mas sob o nosso domínio absoluto.

Escrito por Carlos Olavo Pacheco de Medeiros, em 19/3/2008