Aves Soltas – Liberdade
Humanização das aves
A população associa aves soltas ao sentimento humano de liberdade. Humaniza as aves e animaliza a si mesma.
Somos livres, nós mesmos?
Vivemos em estruturas de concreto que, em proporção, são menores que as gaiolas. São caixas. Empilhadas lado a lado ou umas sobre as outras. E passamos boa parte do tempo, em uma lata que anda, como salsichas pensantes no engarrafamento entre o Aeroporto de Congonhas e o Itaim ou até o Guarujá. E viajamos em latas que voam, como sardinhas suicidas. E, pior, prendemos nossos semelhantes em cubículos imundos e tristes, que faria a pior das gaiolas parecer um palácio. Somos a única espécie que prende semelhantes nessas condições.
Prendemos homens, prendemos mulheres e prendemos crianças, mas não podemos “prender” pássaros.
Podemos prender um peixe como o neon em um aquário, onde ele não se reproduzirá, retirando-os aos milhares das águas do Rio Negro. Ou um japonês em um aquário redondo, forçando-o a nadar em círculos. Mas não podemos “prender” pássaros.
Podemos prender “peixes marinhos”, belíssimos, tirando-os de seus habitats. E os corais. E as anêmonas. E os crustáceos. Do mar podemos tirar tudo. Para comermos um peixe “saudável”, lançam-se redes, que afogam os golfinhos. E os peixes, “saudáveis”, passam por uma cruel morte por asfixia. Mas não podemos “prender” pássaros.
Podemos comer Baby Beef no Rubayat, bezerro preso para ficar com a carne macia. Mas não podemos “prender” pássaros.
Podemos comer foie-gras, fígado de pato, ganso ou marreco, engordado ao ponto da morbidez, em qualquer restaurante francês que se preze, de um animal alimentado a força, com funil, para que um “gourmet”, leia-se, glutão, o devore. Pato, ganso ou marreco este, que pode ser criado em caixas para não se movimentar e, assim, engordar mais rapidamente. Mas não podemos “prender” pássaros.
Podemos comer frango, confinado e alimentado à força, estressado, normalmente com ascite e entupido de hormônios. Mas não podemos “prender” pássaros.
Enquanto isto os guaranis migram, nômades, em busca até hoje da terra sem males.
Ou seja, somos gado humano, como diria o Zé Ramalho. Gado rebelde ou gado domado. Mas gado tocado.
E por não termos liberdade, gostamos de projetar nossa liberdade em aves, em objetos.
É duro, mas o homem não reconstruirá o Éden. Nunca. Nenhum esforço ambientalista o conseguirá.
Para quem crê, só Deus pode nos dar “novos céus e nova terra”. Para quem não crê, só resta o apego a ídolos, lenitivos, como o pássaro. Asas que nós não temos, liberdade que nós não temos.
Pensemos em uma enquete pela internet: “qual a sua opinião sobre o pardal” ou “o que você acha dos pombos soltos nas cidades” ou “quanto você estaria disposto a pagar mensalmente para a preservação das rolinhas”?
A esmagadora maioria das pessoas diria que “pardal é uma praga, tem de morrer”, “tinha que acabar com o pardal”, “pombo é uma praga”, “pombo transmite doença”, “pombo suja tudo” e “pagar para preservar rolinha quando tem tanta gente passando fome…”.
Então, o povo acha correto “soltar passarinho”, mas o passarinho tem de cantar, ser bonito, ser capaz de viver em gaiola (para dar o glamour da libertação).
Se o passarinho for fosco, pardo, silencioso, não “serviria” para grande coisa.
Ou seja, o “povo” quer um meio-ambiente desequilibrado mesmo. Só que estética ou sonoramente mais vistoso.
Araras vermelhas pousando na Vieira Souto, tucanos na Avenida Paulista, curiós arrumadinhos em fila nos fios elétricos do Pacaembu até a Lapa e todos cantando Praia Grande clássico; cotingas, saíras e gaturamos pousados no gramado da Praça da Liberdade em Belo Horizonte e tudo isto culminando com um casal de ararinha-azul chocando na cabeça do Cristo Redentor.
Mas o povo não se importa se o óleo de soja de cada dia é produzido a partir de soja do cerrado, cujas veredas foram drenadas e buritizais queimados; se há condomínios onde deveria haver Mata Atlântica, se o móvel da sala é de madeira nativa silvestre e não de madeira de reflorestamento reciclada; se a verdura que come é orgânica; se o cafezinho afeta o lar do macuco e da araponga.
Esse fenômeno do “franchising de canário-chapinha” não é novo aqui em Minas Gerais e já em várias cidades está acontecendo. Manhumirim, por exemplo, com incentivo. Em Juiz de Fora, de forma embrionária.
Como se diz por aqui, “minero gosta di canarim”…
Eu gostaria de lançar um desafio ao Jornal Nacional: mostrar uma cidade ambientalmente correta em Minas Gerais com um “bando de bicudos”, um “bando de curiós”, um “bando de azulões”, já que essas três espécies são naturais de Minas Gerais? Quem sabe Formiga, com curiós ou Bom Despacho, com uma revoada de bicudos cantanto grego?
Ou mostrar patativas de Jacuípe, em bando.
Ou papa-capins cantando liu-liu em liberdade, bastava que fosse um só.
Quanto às patativas de Jacuípe, penso que não existam mais. Assim como os bicudos Maquiné, lá do Nordeste. Os gregos de Bom Despacho, só um criador em Minas Gerais os preservou. E os liu-liu vão para o mesmo saco da extinção.
Ou mostrar os dó-ré-mis e irerês mortos em plantações de arroz.
Os atropelamentos de pequenos mamíferos do cerrado: raposas, guarás, furões, tamanduás-bandeira, etc. Seriam mortes inevitáveis por veículos acelerados, já que o progresso clama.
Matar é permitido, preservar é crueldade?
Lembro-me sempre do Marechal Rondon: “morrer se preciso for, matar nunca”. Ele falava isto pensando nos índios. Mas podemos pensar nas aves.
As aves morrem um pouco, todos os dias, no modelo de desenvolvimento do qual usufruimos.
O senso popular é um tanto quanto nazista: o ariano canário tem direito à vida, o pardal mulatinho que se dane. Um tem direito a alpiste e o outro, o direito de, quando muito, ser um pária alado, um sobrevivente.
Da mesma sina dificilmente escapa o tico-tico, que aos olhos do “povo” é pouco mais que um “pardal que canta diferente”.
Minha pergunta final é: quem é o senhor do destino das espécies, quem decide seu direito à vida ou à morte?
Escrito por Fernando Martuschelli , em 20/5/2008