Aves Raras em São Paulo
Um belo trabalho
Pesquisador registra aves raras de SP
O ornitólogo americano Edwin Willis lança em breve livro com registro de todas as espécies de pássaros do Estado de São Paulo, metade delas prestes a desaparecer
Reprodução de um aratinga
São Paulo – Museus e pesquisadores do mundo inteiro já estão na fila para receber o livro da Divisa Editora, de Rio Claro (gdivisa@terra.com.br) porque, além de 84 pranchas coloridas com desenhos científicos de cada ave, preparados ao longo de dez anos pelo artista Tomas Sigrist, a obra de 350 páginas tem o registro exaustivo do ponto exato onde cada espécie rara foi comprovadamente vista por qual pesquisador em que data, nos últimos anos. As informações exigiram longas pesquisas no Museu de Zoologia da USP, no Museu Nacional do Rio de Janeiro, no American Museum of Natural History, de Nova York e nos principais museus da Europa. E é por causa desse registro que o professor Willis não acredita que seu livro seja motivo de alegria.
Ao levantar o registro da presença das aves, ele verificou que a maior águia do mundo, a harpia, não nidifica mais em São Paulo, como no passado, e só visita o Estado raramente, quando foge das frentes frias de Missiones, na Argentina; a rolinha-de-olho-azul, Colombina cyanopis do Oeste do Estado já desapareceu, enquanto uns poucos cientistas ainda procuram a codorna-buraqueira que talvez sobreviva na região de Itirapina, mas não é vista há mais de dez anos, da mesma forma que a menor das codornas, tão rara que só tem nome científico, Taoniscus nanus, no passado muito comum, em torno de Itapetininga.
“Metade das espécies do Estado tendem a desaparecer nos próximos anos”, afirma o especialista, “tanto por causa da falta de parques adequados, principalmente no Noroeste do Estado onde o governo não criou reservas para os pássaros da mata seca da região de Suzanópolis e São José do Rio Preto, como pela destruição do cerrado”. Preservar não é fácil, ensina ele, citando o exemplo do já morto pesquisador José Carlos Reis de Magalhães, que tentou sem sucesso preservar o macuco numa mata de 1.400 hectares em sua fazenda e não deu certo, a área era pequena para as necessidades da ave.
O que revolta o professor, entretanto, é a inconseqüência dos traficantes que, segundo ele, “estão matando a galinha dos ovos de ouro à medida em que, ao contrário do que acontece em outros países, capturam todos os filhotes de um ninho, se possível capturam os adultos também e ainda derrubam a árvore onde as aves nidificam”.
Willis não justifica, mas até entende que alguém roube um filhote do ninho de um papagaio, pois dificilmente os pais conseguem alimentar toda a prole e os mais fracos acabariam morrendo, mas não admite a derrubada das árvores, “pois é raro que um tronco tenha um buraco e principalmente um buraco suficientemente grande para um papagaio ou uma arara criar, e sem ocos nas árvores, essas aves não se multiplicam”.
O que irrita sobremaneira o especialista, porém, é a decisão do governo brasileiro de criar parques como da Ilha do Cardoso e depois jogar grupos de índios semi-aculturados dentro da reserva. “É claro que eles caçam e vendem as aves que precisamos preservar.” E a crítica é mais abalizada ainda, porque Willis também tem sangue índio, é descendente dos cherokees.
É talvez pela herança nativa que esse americano do Alabama começou a pesquisar na mata ainda muito jovem. “Pesquisei pássaros no Panamá, na Colombia e no Peru”, lembra ele, e naturalmente acabou na Amazônia brasileira, fazendo o caminho inverso da maioria dos cientistas. Só anos depois é que ele se estabeleceria em São Paulo, faria doutorado na Unicamp e casaria com a também ornitóloga Yoshika Oniki.
Com tendência a enfrentar desafios quase impossíveis, o casal acaba de publicar Bibliography of Brazilian Birds: 1500-2002 (Divisa Editora, de Rio Claro), com 530 páginas em que estão relacionadas todas as obras publicadas ao longo de cinco séculos sobre pássaros brasileiros. Ele começa com Hans Staden e o padre Anchieta, que escreveu Das Coisas Naturais de São Vicente, vai buscar estudos ultra-específicos, como Um caso de albinismo no atobá-marrom, de 1987 e chega aos registros da presença do falcão-peregrino no Rio de São Paulo, aos trabalhos que descrevem novas espécies brasileiras e a estudos como Molecular perspective on higher-level relationships in the Tyrannoidea, de Lanyon. “O livro é obra de minha mulher, eu fiz a menor parte”, explica modestamente o pesquisador.
Se há aves desaparecendo no Estado de São Paulo, o trabalho de Willis mostrou também que há outras se aproveitando dos estragos feitos pelo homem. É o caso da asa-branca, a pomba nordestina de 37 centímetros que, no dizer do professor, “realmente bateu asas do sertão e veio pousar em São Paulo, onde chegou em 1970”, para aproveitar a área desmatada, onde o homem começou a fazer suas roças. Também a lavadeira, Fluvicola nengeta do Nordeste, aproveitou a destruição das matas ciliares de São Paulo para se estabelecer nas margens dos rios a partir de 1980 e agora está colonizando o Paraná.
Nas cidades, a Ara nobilis, um grande periquito maracanã aprendeu a fazer o ninho no forro das casas. Como originariamente é ave do Oeste do Estado, a suposição é que levada para as cidades como animal de estimação acabou escapando e se aclimatou à área urbanizada. Cerca de 200 guarás voltaram a viver no mangue de Cubatão, embora por enquanto não tenham se multiplicado nem ocupado os mangues do restante do litoral, mas é sempre uma esperança, porque a presença dessa ave no passado está atestada até geograficamente, afirma Edwin Willis, que cita o nome da represa, Guarapiranga.
A grande surpresa positiva, porém, é o crescimento da população do maior dos tucanos, o tucano-açu, que está se multiplicando bastante no Estado. Como esse tucano faz longos vôos, não tem dificuldade em voar de uma para outra mancha de mata, em busca das frutas que hoje são cada dia mais comuns nos parques, nos pomares e mesmo na arborização das ruas e, desde que não é mais caçado, o tucano está recuperando o terreno perdido. É uma esperança.
Luis Roberto Queiroz
Escrito por Luis Roberto Queiroz, em 12/10/2003