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Pássaro Canário

Como chegar à homozigose

BOLETIM DO CRIADOURO CAMPO DAS CAVIÚNAS

Nº 8 AGOSTO DE 2003

REDATOR: Dr. JOSÉ CARLOS PEREIRARUA JOAQUIM DO PRADO, 49. CRUZEIRO/SP. TELEFAX 0xx12 31443590

Drjosecarlos2000@aol.com

ELUCUBRAÇÕES SOBRE A GENÉTICA DO CANÁRIO-DA-TERRA

No papo com o Taddei no GET afloraram duas situações:

1-Como chegar à homozigose adequada para facilitar a transmissão da característica desejada?

2-Podem haver dois ou mais caminhos:

21-O mais fácil seria através das consangüinidades, onde se conseguiria homozigose em caracteres determinados, direta ou indiretamente, através de alelos vindos de um mesmo ancestral;

22- Chegar aos dois alelos(genes que ocupam o mesmo lócus) de um mesmo par trazendo a mesma característica qualitativa de pai e mãe não aparentados;

Explicando:

a-A fixação de uma mutação de cor, trabalhando com um ou muito poucos genes, certamente seria mais lógica e efetiva com o uso de consangüinidades, pois, uma homozigose, isto é, com os dois genes para a determinada cor vindos de um mesmo pássaro. O paraíso seriam os dois alelos que compõem o par terem capacidade de dominância sobre os alelos do par de genes que trazem as mesmas características do parceiro/parceira a ser usado. Dai o grande valor, por exemplo, das fêmeas recessivas para o fator desejado;

b-Agora vamos ao temperamento, parte herdada do comportamento (temperamento, herdado + caráter, ambiental), no qual, incluo o canto e a fibra. O canto, sim, porque os pássaros não cantam para somente alegrar os nossos ouvidos e sim como parte do comportamento para conquistar a fêmea e impor domínio territorial. Aqui o buraco é mais embaixo. Com quase certeza o temperamento tem determinismo poligênico (sofre a ação de vários genes que se complementam, compõem-se, anulam-se ou somam-se) e, na composição do comportamento, soma-se ao caráter que, com toda a certeza, é multifatorial (sofre ação de vários fatores ambientais, inclusive o manejo). E o próprio temperamento por si só sofre a ação de vários fatores ambientais desde a concepção (uma fêmea mal nutrida irá gerar filhotes mal nutridos que jamais terão o mesmo temperamento de filhotes que nasceram hígidos). Claro que tudo isto é dito de maneira simplista, pois a genética é muito mais intrincada e cheia de meandros.

Vou teorizar sobre os canários-da-terra. É claro que sofreram através dos anos (talvez às centenas) uma seleção genética natural que permitiu a eles o fenótipo e o comportamento padronizados e uniformes encontrados hoje. Conheço, pois sou mais velho do que a maioria de vocês, os canários-da-terra há mais 50 anos. E posso afirmar de cadeira: não mudaram nada nesse mais de meio século no fenótipo e no comportamento, inclusive o canto estalado. Claro que tudo isso foi conseguido com cruzamentos naturais consangüíneos (há autores que afirmam que, ao serem desmamados, os filhotes distribuem por uma grande área, para, entre outros motivos, evitar consangüinidades muito fechadas) e, mais raramente, não consangüíneos. E o pessoal que os caçava, vivendo num período em que as comunicações não eram tão fáceis, criavam com machos ou fêmeas pertencentes aos bandos das suas regiões. Mantinham, não intencionalmente ou visando qualquer objetivo genético é claro, os mesmos cruzamentos da Natureza, portanto, as mesmas consangüinidades. Verdadeira simbiose genética homem-Natureza.

Exemplifico com o sul mineiro aqui da Mantiqueira, se não o maior, pelo menos um dos maiores mananciais de canários-da-terra do Brasil. Podem andar por Caxambu, Cruzília, S. Lourenço, Itanhandu, Passa Quatro, Itajubá, Lambari, Heliodora, Campanha, Monsenhor Paulo, Careaçu e Pouso Alegre e verão que os canários mantêm um mesmo biótipo, muito boa qualidade média de temperamento e o mesmo padrão de canto estalado. Interessante do ponto de vista sociológico, se assim posso me expressar, é que o manejo é, mais ou menos, o mesmo entre todos os criadores. O bom papo e a proverbial hospitalidade mineira completam o quadro sociológico. E, dando sustentação à tese adotada por muitas pessoas de que o problema da extinção de espécies animais é muito mais devido à destruição dos seus habitats do que à caça (não falo da caça dizimatória com armas de fogo e outros artifícios), apesar de ser uma região onde o canário foi muito caçado, no sul mineiro podemos encontrar uma das maiores densidades deles soltos de todo o Brasil.

Portanto, é sempre bom saber que não estamos criando nada. Simplesmente herdamos um produto feito e muito bem feito pela Natureza, pródiga em sabedoria e muito dura na seleção dos melhores.

Desde o momento em que nos propomos a criar o canário da terra, temos o dever ético de mantê-los como eles sempre foram até o momento. Eles não precisam de grandes melhorias genéticas. Melhorar o quê? O belo e colorido fenótipo? O porte elegante? O temperamento destemido na defesa do seu território? O típico e desafiador canto em qualquer dos seus dialetos?

Afinal, vamos inventar a roda?

Temos, isso sim, é de dar a eles condições de manejo ideais para que possam manifestar todo o seu potencial genético. E procurar sempre juntar os melhores, sejam machos ou fêmeas, imitando a seleção natural da lei dos mais fortes. E, nunca é demais lembrar, mantendo condições higiênicas, principalmente alimentar e antiinfecciosa, aumentar a sua longevidade e o seu potencial reprodutivo, permitindo não somente a sobrevivência da espécie como a possibilidade da povoação das poucas áreas ainda existentes que possibilitem a sobrevida das avezinhas.

Se gosta de criar, procure criar com os melhores espécimes selecionados pelo tripé tipo/temperamento/canto. Se fizer consangüinidades, principalmente as muito próximas, faça-as sobre indivíduos realmente excelentes. Não exerça a cegueira do criador que não vê os defeitos, que sempre existem, da sua criação. De bonzinhos o mundo está cheio e o inferno já está desprezando. E o excelente para a criação nem sempre está pendurado nas estacas dos torneios.

Não junte pássaros com os mesmos defeitos. Crie-os com o tamanho médio determinado pela seleção natural; se resistiram através dos anos com esse tamanho médio fica claro ser ele o ideal para a manutenção da espécie. Tente compensar parceiro grande ou pequeno com parceiro de tamanho ideal. Pequeno com grande dará grandes e pequenos na grande maioria das vezes. Lembro-me de criador de cães pastores dos mais antigos que, tendo fêmeas claronas, procurava compensar usando com elas machos escuros para tentar conseguir o seu ideal de manto preto sobre um amarelo forte; por infringir a boa conduta genética, conseguia filhotes escuros ou claros e, quase nunca, os pretendidos com manto preto sobre amarelo forte. No quesito fibra não há lugar para machos ou fêmeas tímidas.

Gosta dos peruanos? Eu também os acho muito bonitos, bons cantores e de comportamentos belicosos. Crie-os puros. Evite mestiçagens. Mestiçar para quê? Hibridação e mestiçagem não são processos fáceis como parece aos mais desavisados. Se já é difícil criar os puros com bons resultados, e quando falo em bons resultados falo em conseguir melhorar a qualidade do plantel para o fim que se quer, imagina o cruzamento mestiço e, pior ainda, o híbrido entre espécies ou variedades diferentes! E, mestiçando ou hibridando, cria-se uma dúvida jurídica. Os mestiços e híbridos seriam nativos ou alienígenas? Seriam espécies novas ou subespécies? Deveriam constar na lista de controlados do IBAMA ou não? E se forem soltos na Natureza, que danos ecológicos trariam?

As mutações são bonitas? Realmente são. Já criei mutações de outras espécies de pássaros e enchia os meus olhos com a beleza das cores. Lindas. Mas, é matéria para entendidos que se dedicam profundamente a ela, pois, algumas vezes, as mutações surgem trazendo juntas doenças genéticas incapacitantes. Portanto, todo o cuidado deve ser tomado na seleção dos pássaros para a criação de mutações. Procure criar ou fixar mutações seguindo fielmente conselhos dos criadores experientes e não fique tentando ser o criador do mundo. E as mutações não são novas espécies ou subespécies como pensam alguns; somente representam pequenas alterações do genoma de uma espécie.

Os dialetos diferenciados, como o metralha e o carretilha, agradam os ouvidos de muitos? Gosta deles? Crie pássaros que geneticamente tenham siringes e marcações cerebrais desenvolvidas para essas qualidades canoras. Não fique misturando linhas dotadas para qualidades diferentes e dando nó no cérebro dos pássaros.

A vida do criador de canários que cantam estalo e têm valentia e fibra para defenderem os seus territórios é mais facilitada, embora trabalhem com qualidades advindas de poligenia e multifatoriais. Essas qualidades já foram (vêm sendo, na verdade) selecionadas pela mãe Natureza. Basta ao criador não ser enxerido tentando fórmulas mágicas para melhorar o que não pode ser melhorado. O ideal seria raçadores capazes de transmitir, de maneira dominante, alelos homozigóticos para as qualidades que se deseja ou alelos qualitativos vindos de pais diferentes. Procure-os de maneira racional tentando a homozigose em pássaros realmente de excelência genética (alelos para a qualidade desejada vinda de um mesmo ancestral) ou a heterozigose com os alelos trazendo a qualidade desejada de ancestrais diferentes (chamaria de heterozigose qualitativa para a característica desejada). No segundo caso é essencial para quem procura fibra ter um plantel de fêmeas excelentes nesse item e somente usá-las com machos de fibra comprovada. Meia boca exigirá uma boa dose de sorte para dobrar a genética.

Gosto muito do caminho do item 22 do início dessas elucubrações. Parto do princípio, e não tenho a veleidade de ser o dono da verdade, de já ter havido uma seleção consangüínea dos canários-da-terra na Natureza, a qual, inclusive, leva uma grande vantagem de poder eliminar os mais fracos de maneira drástica e sem compromissos éticos. E também já foram depuradas as taras genéticas que poderiam acompanhar as consangüinidades.

Voltemos ao que já foi dito para não ficar o dito pelo não dito, como diria minha avó. Os canários vivem em bandos, dos quais os mais fortes e voluntariosos se apartam para formar casais (casais de ponto) que irão criar novas famílias dentro do próprio território ocupado pelo bando do qual saíram ou, para alguns, também em territórios vizinhos, o que, acho mais difícil. Segundo alguns trabalhos, os filhotes desmamados distribuídos também por territórios vizinhos aos dos seus de nascimentos, dependendo da área territorial e da disponibilidade de alimentos, evitariam a perpetuação de consangüinidades muito próximas (santa Natureza!). Os casais de pontos poderão ser os mesmos de anos anteriores, ser formados por macho que já criou nos anos anteriores com fêmea ainda nova, talvez sua filha e outras n possibilidades. Ocorre o mesmo com as fêmeas. Lembro-me que, ainda adolescente, todos conheciam os casais que criavam durante muito tempo numa mesma árvore, nas mesmas cruzetas de postes ou na mesma caveira de boi encravada no topo de um mourão de cerca (canários ou canárias de ponto). Fora do período de cria, algumas vezes os mesmos pássaros poderiam ser vistos fazendo parte dos bandos. Quando caçavam um macho acasalado, a fêmea logo aparecia com outro, às vezes no dia seguinte, e prosseguia a sua estação de cria. Não me lembro bem, porque levava varadas de marmelo se aparecesse em casa com fêmeas, ainda mais acasaladas, mas o mesmo devia ocorrer com os machos se caçassem as fêmeas. Vejam só quantas possibilidades genéticas dentro de um mesmo bando com aves de vários pais e mães entrecruzando-se entre elas e, algumas vezes, com aves de outros bandos vizinhos aparentados ou não aparentados.

Nesse contexto, a luta pelas lideranças premiava os canários, machos ou fêmeas, mais valentes e com fibra à flor da pele para manter o espaço conquistado. Os reis da cocada preta também deveriam ter porte físico suficiente para se sobreporem aos outros. Num mundo em que somente procriavam os mais fortes e voluntariosos, era de esperar que essas qualidades fossem se solidificando por homozigoses vindas de consangüinidades muito próximas.

E aqui chego ao fulcro da questão. Já notaram como muitos dos canários dos torneios de fibra vieram de criações sem o mínimo controle genético por parte do criador? Como os canários criados atualmente em cativeiro ainda estão geneticamente muito próximos dos nativos, esses criadores usufruem da seleção realizada pela Natureza. Basta juntar fêmeas e machos com boas qualidades no quesito valentia/fibra e fazer figa. E aí surgem duas possibilidades que poderão manter as qualidades genéticas dos canários-da-terra ou acabar, no decorrer os anos, com as qualidades naturais da excelente ave. Juntando-se pássaros de tipo e comportamento (temperamento + caráter) já selecionados naturalmente manteremos e, até sob alguns aspectos melhorarmos, as qualidades que tanto atraem nos canários-da-terra. Ao contrário, se houver cruzamentos entre pássaros fora do padrão de tipo e/ou de comportamento tímido e assustadiço fatalmente, no correr dos anos, quanto mais nos afastarmos das bases naturais (várias gerações somente de canários nascidos em cativeiro) estaremos colaborando para o aniquilamento da espécie de Sicalis flaveola brasiliensis. E aí, eu creio, resida a maior participação dos criadores responsáveis, os quais, representam a única saída para a continuidade da existência de tão importante e representativa espécie de pássaro.

Escrito por José Carlos Pereira, em 31/8/2003

Instrução Normativa

Uma zoonose ?

BOLETIM DO CRIADOURO CAMPO DAS CAVIÚNAS

Nº 5 AGOSTO DE 2003

REDATOR: Dr. JOSÉ CARLOS PEREIRA

RUA JOAQUIM DO PRADO, 49. CRUZEIRO/SP. TELEFAX 0xx12 31443590

Drjosecarlos2000@aol.com

AS INFECÇÕES PELO CAMPYLOBACTER

São bactérias com a forma de vírgula agrupadas no gênero Campylobacter que compreende 14 espécies, das quais, umas sete ou oito produzem doenças no homem. São móveis, têm grande capacidade de adesão às células, poder de invasão e produzem toxinas. As duas espécies mais encontradas no homem são o Campylobacter jejuni, com 50 serotipos, e o Campylobacter fetus. Estão entre as causas mais comuns de diarréia em todo o mundo, sendo em alguns lugares mais encontradas do que as Shigellas e as Salmonellas juntas. Predominam nos meses chuvosos nos países tropicais. As maiores vítimas são as crianças abaixo dos dois anos de idade. Constituem uma zoonose (transmitidas ao homem pelos animais). Os pássaros, tanto os silvestres como os domésticos, os hamsters, os cães, os gatos, as aves aquáticas, os perus, os frangos, os porcos, os carneiros, as cabras e o gado vacum são reservatórios comuns do Campylobacter. Nem totalmente aeróbios e não estritamente anaeróbios, vivem perfeitamente bem no meio gastrintestinal.

Entre as aves, o C. jejuni é a mais freqüente e a mais patogênica; o C. laridis, muito encontrado em gaivotas, tem patogenicidade ainda não bem definida enquanto o C. coli é considerado não patogênico. Além da forma em vírgula, o Campylobacter pode ser encontrado em aves na forma de “s” e na forma degenerativa cocóide.

O homem e outros animais se contaminam pela ingestão de produtos animais, como carne e o leite, pela água, pelo contato pessoal com outras pessoas ou animais, principalmente os jovens, portadores das bactérias. O feto pode ser contaminado durante o parto pela mãe portadora.

As gastrenterites constituem os quadros clínicos mais comuns das infecções pelos Campylobacter e são determinadas quase sempre pelo C. jejuni. Iniciam-se com febre, cefaléia, dores musculares, mal-estar e dor abdominal em cólicas em volta do umbigo que pode ser confundida com apendicite. A diarréia é inicialmente aquosa, talvez determinada por toxinas, podendo em dois a quatro dias evoluir para fezes com catarro e sangue como na Shigellose. As cólicas podem permanecer mesmo após ter cedido a diarréia. As infecções mais leves duram somente um a dois dias e podem ser confundidas com as diarréias por vírus. Em algumas pessoas a diarréia permanece por vários dias e pode voltar após algum tempo de normalidade.

Algumas vezes, principalmente em pessoas com imunidade comprometida, as bactérias, principalmente o C. fetus, podem atingir o sangue (bacteremia) sem produzir infecções localizadas, o que é raro na gastrenterite pelo C. jejuni. O C. fetus pode provocar bacteremia sem diarréia. A bacteremia manifesta-se por febre, calafrios, sudorese, confusão mental, dor abdominal, diarréia, icterícia e aumento do fígado. Quando há infecções localizadas fora do intestino os órgãos mais atingidos são as meninges, o pâncreas, o coração, os pulmões, as articulações, a vesícula biliar e o peritônio. A infecção da mulher grávida, mesmo que seja assintomática, pode causar aborto, natimortalidade, prematuridade ou infecções perinatais muito graves. Duas complicações interessantes são a síndrome de Guillain-Barré, polineuropatia que surge após algumas infecções, e a artrite reacional semelhante a que surge na Yersiniose.

Nas aves os sinais clínicos mais comuns são a diarréia com fezes volumosas, amareladas ou pálidas com aspecto chamado pelos autores anglo-saxões de “popcorn poohs”, letargia, falta de apetite e emaciação (emagrecimento). Esse quadro associa-se aos achados anatomopatológicos de hepatite subaguda ou crônica com infiltração perivascular de células inflamatórias e áreas de necrose num fígado aumentado de volume com coloração pálida ou esverdeada e áreas hemorrágicas. Na parede intestinal é notada inflamação catarral e/ou hemorrágica.. A mortalidade é muito alta, principalmente entre os filhotes; a morte súbita e brutal pode ser conseqüência da ruptura do fígado. Muitas infecções são inaparentes, mas passíveis de serem transmitidas a outras aves. Os quadros sintomáticos dependem, algumas vezes, de fatores que diminuem a imunidade da ave como a concomitância de infestações por coccídeos ou nematódeos e a desnutrição. Entrando num criadouro, o Campylobacter pode permanecer durante semanas determinando quadros sintomáticos, recuperações espontâneas e recaídas até a cessação, por motivos vários, do surto.

O Campylobacter pode ser cultivado em laboratório usando meios de cultura adequados, visualizado no microscópio com técnicas de coloração especiais e identificado por alguns testes sorológicos e pelo DNA. Em meio adequado as colônias desenvolvem-se em 72 a 96 horas a 37-42 ºC.

Há tratamento usando-se os antibióticos macrolídeos, como a eritromicina, a claritromicina e a azitromicina. No tratamento dos pássaros também são citadas as tetraciclinas e a estreptomicina (não deve ser usada em psitacídeos). Volto a afirmar: o tratamento somente deve ser feito seguindo orientação veterinária depois do diagnóstico clínico e/ou laboratorial. Não passe de pato a ganso achando que tem tudo para ser um veterinário, somente faltando o diploma. Cabe aos criadores os cuidados profiláticos.

O controle é relativamente fácil. O principal modo de transmissão é o fecal-oral: saída dos parasitas pelas fezes, contaminação do meio-ambiente e entrada pela boca. Desconhecer esse princípio básico é dar mole para o bandido.

Especificamente, alguns cuidados podem ser tomados pelos passarinheiros para evitar que o seu criatório (criadouro. Na verdade, ainda não achei uma boa e definitiva palavra para definir o local onde são criados pássaros) torne-se foco exportador e importador do Campylobacter:

– Lavar rigorosamente as mãos com água e sabão, sabão mesmo, esfregando as unhas com uma escovinha antes de manusear as frutas, as hortaliças e a água que serão fornecidos aos pássaros. As mãos devem ser lavadas, sempre com água e sabão, antes e depois de manusear pássaros ou os utensílios.

– Lavar rigorosamente, com água e sabão, frutas e as hortaliças que serão dadas aos pássaros e enxágua-las muito bem. Podem ser deixadas por alguns minutos em solução de água e vinagre ou de hipoclorito de sódio, não se esquecendo de enxaguar copiosamente antes de dá-las aos pássaros. Pela simplicidade creio que o lavar as mãos, as frutas e as hortaliças já será uma grande ajuda no controle desses parasitas.

– Oferecer aos pássaros somente água, no mínimo, filtrada. A água fervida seria mais seguro, desde que seja mantida no fogo pelos menos durante 20 minutos após levantar a fervura. Os mesmo cuidados devem ser tomados com a água para os banhos dos pássaros. Esfregar bem os bebedouros para remover o biofilme líquido que fica na superfície e que pode albergar muitas bactérias. O ideal seria ter jogos de dois bebedouros para intercalá-los diariamente, possibilitando a secagem completa de um dia para o outro do que não estiver sendo utilizado. É bom lembrar que as Enterobacteriáceas, entre elas o Campylobacter, adoram uma água, sendo mesmo conhecidas como bactérias dos meios líquidos e, para elas, qualquer filmezinho líquido é um piscinão de Ramos. Lavar, se possível de maneira individualizada, os utensílios também com água filtrada. Se for possível, pelo menos uma vez por mês, ferver os utensílios resistentes à fervura, principalmente as grades e as bandejas do fundo da gaiola. Se for organizada uma rotina, mesmo nos criatórios maiores as atividades profiláticas serão relativamente fáceis. Alguns criadores que dão sementes germinadas aos seus pássaros devem ter cuidado com a água usada para provocar a germinação. O mesmo cuidado deve-se ter com a água usada para umedecer as farinhadas.

– A manutenção higiênica do prédio onde está instalado o criatório deve ser diária, evitando o acúmulo de dejetos e restos alimentares. Ter um jogo de mangueira, pazinha de limpeza, baldes, botas, vassouras, rodos, cestos de lixo, etc. somente para dentro do criatório. Se existirem mais de um ambiente, um jogo para cada um. Verão que vale a pena o investimento. O uso de detergentes e outros produtos de limpeza bactericidas deve ser feito com orientação técnica. Aqui não cabem improvisações. Ainda advogo o uso de vassouras de fogo tendo, é lógico, cuidado para não colocar fogo no prédio e nos pássaros. Sempre usei esse procedimento no canil e é tiro e queda. Nunca houve problemas com parasitas externos e, de quebra, elimino alguns parasitas internos que teimam em viver algum tempo fora do organismo. É método de fácil execução, rápido e não tem ação residual como os produtos químicos. Com técnica adequada não danificará paredes, desde que não se fique com o fogo muito tempo num só lugar como estivesse assando um churrasquinho, e, creio, poderá ser usada nas gaiolas de arame vazias. Tendo-se o cuidado de tirar os pássaros do ambiente, isolando-se as partes combustíveis das instalações, evitando-se a presença de líquidos inflamáveis, etc., o método é seguro. Aconselho procurar informações com alguém que já tenha alguma experiência para não cometer erros de principiante.

– Tratar as fêmeas com Campylobacter é essencialíssimo pela possibilidade delas infectarem verticalmente os filhotes.

– Tratar os machos galadores infectados, pois, por ser comum usá-los com várias fêmeas (poligamia), poderão contaminar o plantel numa proporção geométrica. Não tenho qualquer dado sobre o assunto, mas seria esperada maior possibilidade de contaminação dos machos, devido às grandes aberturas do bico durante os cantos, pela poeira contaminada.

– Manter em observação e isolados todos os filhotes nascidos de mãe e/ou pai contaminados. Os gaiolões com muitos filhotes funcionariam como creches ampliando a disseminação da bactéria.

– Não caia naquela de dar antibióticos com finalidade profilática. São muito poucos os casos em que o uso profilático de antibióticos tem valor comprovado. E a infecção pelo Camnpylobacter não é um deles. Fazendo isso você estará criando cepas resistentes da bactéria, um problema para a sua própria família e para os seus pássaros. Cepas resistentes de uma bactéria que se propaga facilmente num canaril são pragas de sogra (só um xiste, porque a minha era ótima, não tenho queixas).

– Muito cuidado com as fezes das aves. O papel do fundo da gaiola deve ser trocado diariamente. O costume de colocar várias camadas de papel não é bom, pois, o filtrado da parte líquida fecal pode levar os parasitas para a folha de baixo (lembrar que estamos lidando com seres microscópicos). Deve ser usada uma folha de papel e a bandeja deve ser limpa diariamente e colocada ao sol (para isso, seria bom ter, pelo menos, duas bandejas por gaiola). Individualizar as bandejas para evitar usar bandeja usada em gaiola de pássaro contaminado em a gaiola de pássaro não contaminado, criando, assim, condições para disseminação da infecção pelo criatório. Se você usa areia na bandeja, tenha muito cuidado, pois, se não houver troca constante e higiene impecável, será um meio propício para manutenção dos parasitas.

– Muito cuidado com as gaiolas usadas para manter os machos ou levá-los aos torneios. Como ficam a maior parte do tempo fora do criatório, têm maiores possibilidades de ser depósitos de parasitas. São feitas de madeira, com muitos detalhes e têm muitas saliências e reentrâncias que facilitam a vida dos parasitas e dificultam higienizá-las. E, na maioria das vezes, não possuem grade separando a bandeja dos pássaros como acontece com as gaiolas de criação. Creio que, num futuro próximo, poderão ser substituídas por gaiolas feitas somente de arame.

– As vasilhas contendo sementes, farinhadas, minerais e água devem ser colocadas de modo a evitar que sejam atingidas pelos jatos evacuatórios dos pássaros. Inspecioná-las diariamente e, se estiverem sujas com excrementos, desprezar o conteúdo e higienizá-las.

– Muito cuidado com os poleiros. Devem ser colocados de maneira que não possam ser sujos pelas fezes, pois, pelo hábito das aves limparem o bico neles após alimentarem-se, a contaminação será fácil.

– Cuidado especial com pássaros trazidos de fora do canaril, mesmo que seja somente para uma galadinha. Fazer quarentena nem sempre é praticável. Se o galador vier de canaril que mantenha boas condições higiênicas tudo fica mais fácil. Seria ótimo os donos dos bons pássaros galadores manterem os pássaros em ótimas condições de higiene física, social e até mental, pois, eles podem representar um boa fonte de renda para abater nas despesas do criatório.

– Com as aves adquiridas para compor o plantel a quarentena é obrigatória, a não ser que venham de criatório que mantenha rígidas condições de controle sanitário do plantel. Creio que a quarentena de três semanas seja suficiente para a maioria das doenças infecciosas. Não trazer o pássaro em gaiolas do criatório de onde o adquiriu. Manter o pássaro entrante fora das instalações que albergam o plantel. O ideal seria uma pessoa para cuidar somente dele e que não tivesse acesso ao criatório. Se não, usar luvas ou lavar rigorosamente as mãos, com água e sabão, após o trato e cuidados com os utensílios da ave em quarentena. Todos os utensílios, produtos alimentares, vassouras, pazinhas, cestos de lixo, etc. devem ser mantidos separadamente dos usados para o plantel. Ponto de água para lavar os utensílios separado. Muito cuidado com os excrementos. A quarentena deve ser para valer ou nem vale a pena ser feita.

– Cuidado com os machos que vão a torneios ou a outros criatórios para coberturas. Seria interessante ter uma gaiola somente para torneios e outra para a manutenção do pássaro no criatório. Um apresentador de cães do nosso canil colocava nas guias dos cães que iam às exposições uma fitinha vermelha do Senhor do Bonfim; foi bom porque nenhum cão voltou contaminado das expos. Cuidado porque cavalo não desce escadas, como dizia o famoso colunista social carioca.

– Levar água filtrada e/ou fervida quando for a torneios, evitando dar ao pássaro água da torneira sem as condições higiênicas seguidas no criatório. Se esquecer, é preferível dar água de garrafa tipo natural. Nem para o banho deve ser usada água do local dos torneios.

– Cuidado com a água do banho dos pássaros. Deve ser, pelo menos, filtrada e, sempre que possível, fervida. Tirar a vasilha logo que o pássaro terminar o banho.

– Algumas vezes os parasitas podem ser trazidos para o criatório pelas patas de pássaros, como os pardais, ou das moscas. Telar as janelas, portas e as aberturas para a ventilação é medida heróica. Não deixar lixo ou restos de comida expostos é essencial porque eles atraem pássaros, moscas e predadores, inclusive ratos. Muitas plantas também são atrativos para os pássaros soltos visitarem o criadouro. É aconselhável evitar a presença de cães dentro do criadouro, pois eles podem ser o veículo para a entrada do Campylobacter no criadouro.

– E sol, amigos, pois, onde entra o sol não entra o médico, ou o veterinário, como dizia minha avó. Locais escuros, muito quentes e úmidos jogam para os bandidos. Lembrar que, em ambiente seco, o Campylobacter não resiste mais de uma semana.

As medidas profiláticas são econômicas e, tornadas rotinas, de fácil execução. Servem também para evitar muitas outras doenças que infernizam os criadores, como as determinadas por outras bactérias intestinais (Salmonella, Escherichia e Yersinia) e pelos protozoários intestinais.

Escrito por José Carlos Pereira, em 31/8/2003